Homens (“Men”)

Com esse filme, finalmente já dá para dizer que os homens são todos iguais.

Agora falando sério: Jessie Buckley de “A Filha Perdida” é Harper que após uma perda traumática em seu casamento, decide passar um fim de semana numa casa de campo isolada ao lado de uma vila. Pouco a pouco ela descobre que sua dor e luto refletem no comportamento dos homens da vila que, estranhamente tem todos a mesma face (a do ator Rory Kinnear dos últimos filmes de “007”).

Como geralmente acontece nos filmes de terror produzidos pela A24 e, inclusive dirigido pelo cineasta cabeça Alex Garland, de “Aniquilação”, este não é bem um filme normal, isto é, comercial e retilíneo. É um filme sobre como a masculinidade tóxica afeta o psicológico de uma mulher tentando expor sua culpa e fraquezas.

Repare que cada personagem masculino comete os mais variados níveis de machismo desde a micro até a macro agressão e, ponto positivo, preservam uma complexidade singular em cada um (ponto para Kinnear e diretor).

Curioso inclusive que até a metade do filme, quase não se tem idéia de como esse tipo de terror vai ameaçar a protagonista, até que o terror começa.

Só que daí, também começa uma subjetividade que é capaz de atrapalhar o desenvolvimento. A busca pelo subjetivo faz com que o espectador comece a duvidar sobre o que está acontecendo, ou se tudo é fruto da imaginação da própria protagonista como num auto-exorcismo de seus atos e de sua suposta culpa na tragédia mostrada no início, tecla na qual os personagens masculinos fazem questão de bater.

Quanto mais a produção se aproxima do final, maior é a subjetividade, principalmente quando Harper também começa a agir de forma estranha, como se ela mesma começasse a entender que nem tudo é real e que talvez a verdadeira batalha está dentro dela.

O último minuto tenta explicar pelo menos um pedacinho do que pode ter acontecido, mas ainda assim não é suficiente. Ao contrário de “Mãe!”, um terror também subjetivo, mas que tem um final esclarecedor, em “Homens”, o excesso de contemplação da própria arte audiovisual presente em toda a narrativa e essa abordagem psicológica abstrata não ajudam a melhorar o entendimento que, por conseguinte atrapalham o resultado no final.

Os efeitos especiais principalmente no final são sensacionais, com cenas gráficas bem fortes e que fazem total analogia entre os homens da vila e o ex-marido de Harper.

Homens” é um terror peculiar que passa uma forte mensagem sobre o machismo e feminismo, mas parece se concentrar mais na mensagem que na própria história.

Se já viu o filme e quer saber sobre o que acho que aconteceu, leia abaixo as curiosidades com spoilers!

Curiosidades:

  • Logo no início quando as sementes de um Danda leão se destacam, pode-se ver numa fração de segundo elas formando a palavra “MEN” (título original do filme).

***SPOILERS – SÓ LEIAM APÓS ASSISTIR O FILME***

  • O que acho que aconteceu: A vila era de uma seita animista (representada pelo homem nu) de uma entidade que se reproduz assexuadamente e dá vida a outros homens praticamente à sua imagem e semelhança. A entidade se sentiu ameaçada quando Harper se recusou a se submeter ao machismo da vila e então a atacou em casa. Só que toda essa ação vista pelos olhos da protagonista foi relacionada à perda de seu marido, que a culpa pelo próprio suicídio. Assim, tudo o que acontece com a entidade já no fim do filme é exatamente o reflexo do que aconteceu com seu ex-marido ao morrer.
  • Quando a amiga dela chega para ajuda-la no final, encontra o carro batido e um caminho de sangue na entrada de casa e depois vê Harper sentada numa escadaria no jardim com as mesmas marcas de sangue do último ato. Isso quer dizer que pelo menos há um corpo morto na casa – provavelmente a própria entidade – e que boa parte do que houve foi verdade.
  • O simbolismo do Danda leão é significativo, pois é uma flor que se reproduz assexuadamente, tal qual a entidade animista do filme.
  • As entidades esculpidas na igreja que aparecem em vários momentos são símbolos bretões. O primeiro é chamado de Homem-Verdade, o qual de certa forma é representado pela entidade. A segunda é Sheela, conhecida como a entidade da sexualidade com pronunciados seios e vulva.
  • A máscara feminina usada por um dos personagens representa a falta de mulheres na vila.
  • O gatilho para o terror é logo no início do filme quando ela pega a maçã e morde e depois o senhorio da casa de campo diz que ela mordeu o fruto proibido, fazendo uma analogia em que a mulher saiu do seu lugar de submissão.

Ficha Técnica:

Elenco:
Jessie Buckley
Rory Kinnear
Paapa Essiedu
Gayle Rankin
Sarah Twomey
Zak Rothera-Oxley
Sonoya Mizuno

Direção:
Alex Garland

Produção:
Andrew Macdonald
Allon Reich

Roteiro:
Alex Garland

Fotografia:
Rob Hardy

Trilha Sonora:
Geoff Barrow
Ben Salisbury

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