Hollywood tem uma certa obsessão por Shakespeare e por Ricardo III, personagem real que foi parte da obra homônima do autor. E toma filmes sobre o rei, sobre a peça, sobre ambos, durante pelo menos 4 décadas.
Com quase um esgotamento de ângulos, chega o cineasta e o ator e produtor Steve Coogan e repetem a parceria que fizeram no lindo e premiado “Philomena” para contar a história da mulher que descobriu os restos mortais de Ricardo III em 2012 e lutou para que o Reino Unido mudasse a imagem que ele tinha de usurpador de trono (tal qual contado por Shakespeare) para um rei legítimo.
Assim chamaram a super competente Sally Hawkins de “Maudie: Sua Vida e Sua Arte” para ser a protagonista, Phillipa Langley, uma mulher com síndrome de burnout por nunca ser reconhecida e que, com todas as dificuldades, resolve se desconectar e se apaixona pelo tema histórico de Ricardo III até que isso se torna uma obsessão que a faz focar em encontrar o loval onde o rei foi enterrado sem nunca ter tido experiência em arqueologia e história, desafiando autoridades para provar a tese que estava montando.
Só que a bem da verdade, nem todas as histórias reais (sem pleonasmo) merecem uma adaptação de cinema. E olha que o diretor aqui tentou de tudo: Hawkins interpreta Phillipa com seriedade e carinho; coloca-se uma subtrama onde ela vê o próprio Ricardo III quase como uma esquizofrenia que é transformada em poesia pela narrativa (nada mal); e ainda tem uma trilha sonora pra lá de maluca – no bom sentido – de ninguém menos que Alexandre Desplat (“O Alfaiate”) que faz de tudo para tornar a narrativa dinâmica, empurrando-a com seus acordes que revezam entre o dramático e o bom humor.
Mas não teve jeito, faltou mais conteúdo, mais conflito para que a produção suba de patamar. Há a competência por todos os lados para garantir um filme digno, mas a história não decola. A própria essência parece muito mais voltado para a comunidade britânica do que para o espectador médio de qualquer lugar do mundo, e não houve artifício que pudesse universalizar o desenvolvimento da história.
“O Rei Perdido” segue assim como um bom passatempo onde o cinéfilo consegue identificar bem os elementos usados para impulsionar o resultado e separá-los do conteúdo em si, como um exercício de nicho.
Curiosidades:
- Há uma pequena discrepância entre o filme e a realidade: no filme, Phillipa aparece como sendo a pessoa que descobriu o lugar onde Ricardo III havia sido enterrado, mas na verdade dois historiadores britânicos já apontavam em artigos a suposição de que aquele lugar era o correto. O que Phillipa fez foi comparar vários estudos e materializar através de crowdfunding os recursos necessários para explorar aquele lugar que já havia sido citado antes.
- A Philipa Langley de verdade está sentada na igreja de cabelo loiro no fim do filme na cena da cerimônia de enterro de Ricardo III.
- Philipa Langley passou muito tempo da sua vida de cabelo curto e preto e por isso assim foi caracterizada a atriz Sally Hawkings. Porém, na época em que Philipa achou onde Ricardo III fora enterrado, ela já estava de cabelo loiro longo.
Ficha Técnica:
Elenco:
Sally Hawkins
Steve Coogan
Harry Lloyd
Mark Addy
Shonagh Price
Helen Katamba
Lewis Macleod
Jenny Douglas
Benjamin Scanlan
Adam Robb
Robert Jack
Direção:
Stephen Frears
História e Roteiro:
Steve Coogan
Philippa Langley
Jeff Pope
Produção:
Steve Coogan
Christine Langan
Dan Winch
Fotografia:
Zac Nicholson
Trilha Sonora:
Alexandre Desplat