Obsessão (“Obsession”)

Um dos melhores filmes de terror do ano fala sobre relacionamento tóxicos através de uma maldição sobrenatural.

A excelente estréia do diretor Curry Barker na tela grande conta com um elenco desconhecido: Bear (Michael Johnston) é apaixonado desde a época de colégio por sua colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette). Ele compra um artefato de desejos numa loja mística e ao desejar que Nikki o ame mais que tudo, ela passa a ficar obcecada por Bear, numa escalada que pode ser fatal.

Falando primeiramente do terror em si, o diretor fez escolhas artísticas excelentes e originais, como o fato de que quase sempre em que Nikki está, digamos, “possuída” seu rosto fica nas sombras ou de costa. Não dá para saber se é efeito digital ou se é puro efeito de iluminação (e isso dá medo), mas sempre que a atriz paira na sombra seu rosto parece desfigurado.

Além de usar ótimos posicionamentos de câmera e efeitos de iluminação – com zero CGI – Barker se utiliza da vocalização como instrumento de terror: a Nikki possuída grita desesperadamente em momentos chave e vira a chave como se houvesse uma bipolaridade demoníaca dentro dela. O fato de ela ser baixinha e franzina, isto é, visualmente mais delicada, é o contraste perfeito para a ameaça que ela passa a representar para Bear.

Aliás, Navarrette está sensacional nessa interpretação que é puro terror, mas que consegue dar aquela pitada de humor que faz o espectador rir de nervoso. Inclusive ela deixa seu colega coprotagonista no chinelo, cujo personagem parece ser um tanto caricato do jovem retraído americano.

Outro ponto importante do roteiro é que, ao contrário de filmes de maldição como “Sorria”, aqui se deixa bem claro que a maldição em si não é relevante e já direciona o público a não tentar entender sua origem, mas apenas focar na possível solução. Inclusive a trivialidade com que a tal maldição é tratada talvez seja o melhor alívio cômico sem forçar a barra.

Há um ângulo menos relevante, mas igualmente interessante para se analisar, que é a questão da manipulação que torna o relacionamento tóxico, pois mesmo num contexto absurdo, o roteiro faz questão de criar situações que poderiam estar tranquilamente vinculadas a um comportamento doentio, independendo do gênero.

Inclusive há uma questão importante que acontece na virada para o terceiro ato: uma cena emblemática que mostra como Bear também tenta manipular a situação à sua conveniência sem se importar se isso fará bem à Nikki.

Apesar das cenas de construção da tensão serem aterradoras e o principal trunfo do terror, os momentos de violência são crus e selvagens e pesadíssimos graficamente falando. O clímax ainda tem uma ótima reviravolta envolvendo a maldição que resulta no dos desfechos mais criativos do ano.

“Obsessão” dá um banho de originalidade e tensão máxima, seja em sua história, na abordagem visual e na propagação do medo, num terror despojado e inteligente que deve ser o próximo cult do gênero, tal qual “Corrente do Mal”.

Curiosidades:

  • As cenas da loja de música foram filmadas na mesma loja de “Quanto Mais Idiota Melhor”, a clássica comédia besteirol de 1992.
  • O filme foi rodado em menos de 20 dias com o custo de 800 mil dólares e foi comprado pela Focus Features por 15 milhões de dólares.
  • A protagonista Inde Navarrette disse em entrevista que tem medo de filmes de terror.
  • A primeira decisão do filme foi o formato da caixa e do dispositivo de desejos.
  • O protagonista Michael Johnston é gay na vida real.

Ficha Técnica:

Elenco:
Michael Johnston
Inde Navarrette
Cooper Tomlinson
Megan Lawless
Andy Richter

Direção:
Curry Barker

História e Roteiro:
Curry Barker

Produção:
James Harris
Christian Mercuri
Roman Viaris-de-Lesegno

Fotografia:
Taylor Clemons

Trilha Sonora:
Rock Burwell

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