O Sabor da Vida (“La passion de Dodin Bouffant”)

Mais de 20 minutos e o espectador pensa que está vendo um requintado canal de receitas, já que a produção francesa começa e perdura com a dupla de cozinheiros Eugenie e Dudin fazendo vários cursos de pratos para uma longa refeição. Na época em que se passa a história – no século XIX – cada refeição durava horas e os pratos vinham em rodadas ou cursos.

Mesmo sem uma apresentação formal dos personagens e da premissa, o primeiro ato dá água na boca. Só depois vamos conhecer de verdade Dudin (Benoît Magimel de “Conexão Francesa”) um chef e empresário rico que há 20 anos divide sua cozinha com Eugenie (Juliette Binoche de “O Retorno”), sua cozinheira, mas cujo relacionamento de afeição vai evoluindo para o amor.

Até então é só isso que o expectador precisa saber e, inclusive, é só isso que ele sabe, pelo menos até a metade do filme. Só que até lá, todos nos apaixonamos pelo filme e pela gastronomia.

Dirigido pelo vietnamita Tran Anh Hung que nos entregou o clássico de 1993 “O Cheiro da Papaia Verde”, “O Sabor da Vida” é um filme sobre a culinária como um ato de amor, seja fraterno, seja de casal ou até mesmo o cuidado profissional.

A partir de meados do segundo ato quanto o relacionamento entre o casal se estabelece, é delicioso ver o cuidado de um com o outro através da preparação dos pratos e da observação para entender o prazer mútuo em experimentar as comidas.

Ao mesmo tempo em que o diretor investe grande parte do tempo em cenas quase didáticas sobre os diversos pratos materializados ao longo da produção, ele também é certeiro nos eventos belos e trágicos da relação da dupla de protagonistas.

Juliette Binoche mistura traz uma dualidade de força e fragilidade que só grandes atrizes podem combinar, enquanto Benoît Magimel está apaixonante como o apaixonado Dudin e, com o aproximar do último ato esse amor fica cada vez mais forte e impossível de não se sentir do outro lado da tela.

O mais interessante é saber que os dois artistas já se casaram “na vida real” de 1998 a 2003. No desfecho o diretor acerta uma flechada no coração do público com uma belíssima tomada que gira em 360º.

Baseado no best seller de Marcel Rouff, “O Sabor da Vida” é ousado por passar muito de seu desenvolvimento concentrado na gastronomia, o que deve dividir opiniões, mas depois se entende a direta relação com o amor de seus personagens o que dá ainda mais tempero na história. Esse filme é um banquete.

Curiosidades:

  • Uma das cenas mais curiosas, é a que o grupo de amigos come um pássaro com os lenços na cabeça, escondendo o rosto. O nome é Ortolan, um pequeno pássaro cantor migratório da Eurásia, famoso por ser o ingrediente de um prato tradicional e polêmico da culinária francesa, proibido praticamente no mundo todo. No século XIX era comido inteiro, pois tinha cerca de 16cm. Como fazia muita sujeira no momento de se comer, os nobres envolviam os rostos com lenço para que ninguém pudesse ver a lambança.
  • Pierre Gagnaire, que interpretou o cozinheiro do príncipe, também foi consultor de gastronomia do filme. Ele é na verdade um verdadeiro chef francês com 13 estrelas no Guia Michelin em 2023.
  • No século XIX começou a se usar a eletrocultura, o uso de uma antena de cobre para ajudar a melhorar o crescimento da safra, mostrado no filme. Mas até hoje não há evidências científicas que apoiem a prática.
  • Há um omelete oferecido no filme que tem o nome de Baked Alaska dando a impressão que foi criado nos EUA. Em português se chama Omelete Norueguês, dando a impressão que foi criado na Noruega. Entretanto, o prato é uma invenção francesa, revelada pela primeira vez ao mundo na Feira Mundial de Paris de 1867.

Ficha Técnica:

Elenco:
Juliette Binoche
Benoît Magimel
Emmanuel Salinger
Patrick d’Assumçao
Galatéa Bellugi
Jan Hammenecker
Frédéric Fisbach
Bonnie Chagneau-Ravoire
Jean-Marc Roulot
Yannik Landrein
Sarah Adler

Direção:
Tran Anh Hung

História e roteiro:
Tran Anh Hung
Marcel Rouff

Produção:
Olivier Delbosc

Fotografia:
Jonathan Ricquebourg

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