Talvez o filme mais íntimo de Almodóvar dos últimos anos e melhor aproveitará quem for mais familiarizado com sua história e sua obra.
Raul (Leonardo Sbaraglia de “Neve Negra”) é um escritor que começa a desenvolver um novo livro que se passa em 2004 e apresenta Elsa (Bárbara Lennie de “As Linhas Tortas de Deus”), uma diretora de filmes e comerciais que começa a ter episódios de crise de pânico por causa do luto tardio de sua mãe, mas encontra nas mazelas das pessoas a sua volta uma vontade de escrever um novo roteiro.
O que torna a narrativa instigante é que obviamente Elsa é o alter ego de Raul e ambas as histórias se desenrolam em momentos diferentes mas que vão se refletindo, sendo que o que acontece em uma realidade se reflete na outra como se o espectador pegasse a peça de um quebra-cabeças e pudesse colocar no seu análogo para entender o que se passa, num intercâmbio de peças que vai montando o cenário completo de cada realidade.
Almodóvar – que veio do ótimo drama “O Quarto ao Lado” – vai desenvolvendo a trama de forma tranquila – e às vezes um tanto arrastada – e, até o terceiro ato, troca reviravoltas pelas pequenas descobertas sobre como o livro se encaixa na realidade.
Inclusive, a partir da metade, quando Elsa começa a escrever seu roteiro, ele ainda acrescenta mais uma camada que provoca um atrito entre os personagens que vai se refletir também com Raul e seus agregados: um roteiro escrito pela personagem de um livro, que por sua vez é escrito pelo autor de “carne e osso”.
O diretor mantém sua indelével abordagem visual e design de produção com cores vivas, mas que sempre expõe o ambiente dramático, mas também surpreende com contrastes exuberantes como a praia negra no litoral espanhol.
Como já citado, talvez o único problema da obra seja a construção pouco dinâmica da trama: os diálogos são ótimos, algumas cenas exuberantes como o strip-tease ou na cena da belíssima interpretação e história de La Llorona de Chavela Vargas, mas as edições são lentas, a trilha não acompanha (a não ser no ótimo final) e passa uma leve sensação de cansaço.
De toda forma, “Natal Amargo” é um ótimo drama sobre luto e redescoberta, inclusive das pessoas invisíveis ao redor, contado com carinho pelo cineasta espanhol, mas que poderia ter sido contado num ritmo um pouquinho mais ágil.
Curiosidades:
- Raùl é obviamente um alter ego para o próprio Pedro Almodóvar. Ao longo do filme, há muitas dicas: o uso de Chavela Vargas para o filme que ele está escrevendo; o fato de ele ser homossexual e preferir protagonistas femininas. No confronto final com Mônica, ela diz que “ele já havia sofrido sua mãe em outro filme” e isso realmente aconteceu na semiautobiográfica “Dor e Glória” (2019). Ela também diz que Raul foi procurado pela Netflix para uma série de curtas-metragens, que ele recusou: isso realmente aconteceu com Almodóvar.
- O filme que Patrícia está assistindo enquanto Elsa entra é Frida (2002) na cena que apresenta Chavela Vargas no papel de um fantasma, cantando “La Llorona” (a música sobre a qual eles falam mais tarde).
Ficha Técnica:
Elenco:
Bárbara Lennie
Leonardo Sbaraglia
Aitana Sánchez-Gijón
Victoria Luengo
Patrick Criado
Milena Smit
Quim Gutiérrez
Direção:
Pedro Almodóvar
História e Roteiro:
Pedro Almodóvar
Produção:
Agustín Almodóvar
Fotografia:
Pau Esteve Birba
Trilha Sonora:
Alberto Iglesias





