“Marty Supreme” é o típico filme com marketing de Oscar. É propagandeado como baseado em eventos reais. Não é. A produção se baseia na vida de um traficante que se tornou jogador profissional de tênis de mesa campeão nacional várias vezes com um estilo provocador e arrogante. Mas o grande feito do jogador foi ter vencido um campeonato nacional aos 67 anos, coisa que não é mostrada no filme (seria nos pós créditos, mas cortaram na edição). De resto, praticamente tudo é inventado.
Aqui Supreme é interpretado por Timothée Chalamet de “Um Completo Desconhecido”, já ganhou um Globo de Ouro de Melhor Ator e está na corrida do Oscar.
A grande sacada do time de marketing do filme dirigido diretor Josh Safdie de “Jóias Brutas” foi colocar um trailer onde claramente Marty é o herói, enquanto ao ver o filme constatamos que ele é um mau caráter de marca maior: tenta enganar a todos, inclusive sua família, fica com mulheres casadas, engravida uma delas, nega a paternidade, rouba, ofende e tudo de ruim que alguém pode fazer. Sim, esse é o herói e o motivo da história ser tão interessante.
De posse de todos esses predicados, Chalamet dá um show de interpretação, enquanto o diretor monta uma história quase de máfia, mostrando as desventuras do protagonista ao tentar arranjar dinheiro para participar de torneios que ele sequer sabe se pode entrar.
A postura elétrica do ator e a câmera nervosa do diretor criam uma dinâmica que nunca deixa o ritmo lento, por mais que esteja se tratando de um drama. O design de produção e reconstituição de época é belíssimo e com muito glamour, incluindo a performance das ótimas coadjuvantes como Gwyneth Paltrow voltando muito bem depois de um longo hiato desde “Vingadores – Ultimato” como a atriz em fim de carreira Kay Stone, e seu contraponto a ótima Odessa A’zion de “Noite de Terror” que brilha no papel da amiga de infância que virou amante.
Ainda tem a perfeita trilha sonora oitentista, escolha peculiar, que vai de Alphaville, passando por New Order e Tears For Fears.
O único pecado do roteiro foi o último ato, onde a personalidade de Marty dá uma virada, digamos “misteriosa”, sem nenhum pedaço da história que suporte a tal epifania que a gente nem vê acontecer. Seu desfecho que parece falsamente redentor – como se fosse a hora de enganar a platéia – é rápido como uma história que deixou de ser contada e transforma o filme mais numa série de eventos curiosos, do que numa cinebiografia propriamente dita.
“Marty Supreme” passa a maior parte do tempo surpreendendo o público positivamente, eleva o nível de produção e atuação, mas chega no final para surpreender negativamente com um fiapo de uma redenção fake.
Curiosidades:
- Chalamet vem treinando para o papel de Marty Supreme desde 2018 e em todos os filmes que fez de lá até agora, ele levava uma mesa de pingue pongue para os sets e ficava treinando nas horas vagas.
- O personagem campeão de tênis de mesa amigo de Marty foi baseado em Béla Kletzki, judeu preso no campo de concentração alemão que só escapou da câmara de gás porque os nazistas o reconheceram como campeão mundial.
- O famoso e premiado escritor David Mamet faz uma participação como o diretor da peça de teatro de Kay Stone.
- Kevin O’Leary que faz o papel do marido de Kay Stone e empresário, é de verdade um empresário e jurado do programa Shark Tank. Ele também atestou que a cena onde bate com uma raquete de tênis de mesa em Marty foi real, pois as raquetes de mentira sempre quebravam na hora da cena.
- A última cena a ser filmada foi a do teatro.
- Na cena do torneio britânico, uma das vozes da platéia é de ninguém menos que Robert Pattinson. Amigo do diretor, ele topou gravar sua voz na pós produção.
- Nesse mesmo torneio, que está logo no início, todos os jogadores contra quem Marty joga são realmente profissionais do tênis de mesa e grandes campeões.
Ficha Técnica:
Elenco:
Timothée Chalamet
Odessa A’zion
Gwyneth Paltrow
Kevin O’Leary
Larry ‘Ratso’ Sloman
Mariann Tepedino
Ralph Colucci
Tyler the Creator
George Gervin
Luke Manley
Fran Drescher
Sandra Bernhard
Emory Cohen
Géza Röhrig
Direção:
Josh Safdie
História e Roteiro:
Josh Safdie
Ronald Bronstein
Produção:
Ronald Bronstein
Eli Bush
Timothée Chalamet
Anthony Katagas
Josh Safdie
Fotografia:
Darius Khondji
Trilha Sonora:
Daniel Lopatin





