Backrooms: Um Não-Lugar (“Backrooms”)

Longa metragem de estréia do diretor Kane Parsons então com apenas 19 anos! O detalhe é que o filme foi baseado numa série de YouTube que ele mesmo fez em 2022, ou seja, quando dia 15 anos!!!

A história se passa em 1990 e nos apresenta Chiwetel Ejiofor (“A Incrível Eleanor”) como o dono de uma loja de móveis atormentado pela separação da esposa que descobre no andar de baixo da loja uma passagem para um lugar enorme e misterioso como um labirinto infinito de cômodos.

Enquanto tenta convencer a sua psicóloga Mary (Renate Reinsve de “Valor Sentimental”) de que não está louco, ele passa a explorar o lugar sem saber que pode haver entidades mortais lá dentro.

Parsons faz uma mistura inteligente da abordagem visual mais tradicional em terceira pessoa, com a de primeira pessoa e câmera na mão, que lembra em muito o estilo de ”Bruxa de Blair”. Só que ele trabalha ainda melhor essa abordagem, pois ele utiliza uma excelente sonoplastia para construir a tensão, seja do barulho das luzes, até mesmo estalos e passos, onde ele encontra sempre oportunidades para bons sustos.

Além dessa tensão, que vai escalando a partir do segundo ato, há o principal, que é o mistério em torno do que é o tal “Não Lugar”. O filme vai dando pistas e revela um quebra cabeça sutil, mas extremamente importante que revela pelo menos parte do mistério (e nós revelamos aqui na parte de Spoilers lá em baixo). Inclusive o desfecho consegue – sem palavras – dar ao público mais atento, uma noção completa do que é aquele espaço ou dimensão.

Por incrível que pareça, um dos únicos prblemas do filme nada tem a ver com o tal lugar misterioso, mas sim com a jornada do co-protagonista Clark, que num período de tempo pequeno (mas que o roteiro não diz o quanto) tem uma completa mudança de comportamento que, além de estranha, toma mais tempo de tela do que deveria no início do terceiro ato, provocando uma quebra de ritmo desnecessária.

Tirando essa derrapada “Backrooms” é mais um ótimo terror com originalidade que vai desde o design conceitual até a maneira de como personagens interagem com o ambiente e entre si, além de provocar uma intensa reflexão sobre a maneira como lembramos da nossa própria vida.

Curiosidades:

  • A produção construiu cerca de 2 mil m² de Backrooms, o que fez com que alguns membros da equipe ocasionalmente se perdessem no set.
  • O áudio do trailer apresenta saudações em 55 idiomas do Voyager Golden Record de 1977.
  • As imagens de CFTV do trailer são datadas de 29 de junho de 1990, um mês após o vídeo do YouTube Static Dead End.
  • O filme mantém a estética do curta viral original, que foi criado usando o Blender e o After Effects.
  • Alguns itens que aparecem no filme também fizeram parte da série do YouTube.

**SPOILERS – SÓ LEIA APÓS ASSISTIR AO FILME**

O terceiro ato é o momento das revelações e elas se passam em 3 momentos diferentes:

  1. Quando Clark revela à Mary que ele “entendeu” que esse lugar ou dimensão representam as lembranças de tudo o que já houve. Como nosso cérebro nunca consegue guardar exatamente qualquer lembrança, o cenário vai se distorcendo e as pessoas das lembranças também. Por isso que nessa dimensão as pessoas estão com uma aparência distorcida. Mas lembranças de quem ou de que? E de onde e de quando?
  2. Quando o misterioso cientista Phil (Mark Duplass  de “Paddleton”) interroga Mary, ele explica que ele trabalhava nessa empresa aparelhos de Ressonância Magnética até que eles descobriram esse “lugar” e que desde então ele vem entrando lá para estudar sua extensão e até agora não chegaram numa conclusão. Pode haver um vínculo com a ressonância magnética ter gerado essa dimensão. Há uma cena anterior, onde o cientista está em casa e vê a propaganda da loja de móveis onde Clark está fantasiado como pirata. Na cena do diálogo entre Mary e Clark, ele diz que o “monstro” que está chegando é ele mesmo. Eis que aparece uma versão monstruosa de Clark, vestindo sua roupa de pirata. Então é bem provável que tudo tenha começado com Phil e suas lembranças. Tanto que a última cena do filme é a própria lembrança do interrogatório, onde aparece a “cópia” de Mary desfigurada. Só que nesse desfecho também aparecem lembranças de Clark e Mary dentro da dimensão alternativa, o que pode querer dizer que o “não lugar” se constrói com as lembranças de todos aqueles que já entraram lá e não morreram (ainda).
  3. Finalmente nesse desfecho aparece uma cena de um cômodo e a câmera funciona como um elevador descendo e, a cada andar, o cômodo vai ficando mais distorcido e se dissolvendo no amarelo básico que permeia toda a dimensão. Isso dá a entender que quanto mais distante no tempo essa lembrança está, menos nítida ela é. Assim, os cômodos vazios e todos amarelos da dimensão são lembranças passadas a tanto tempo que praticamente nada sobrou delas.

Assim, os Backrooms formam uma dimensão de lembranças provavelmente a partir de um experimento da empresa de RM e que está se expandindo quanto mais lembranças consegue acumular de todas as pessoas que já entraram nessa dimensão.

Ficha Técnica:

Elenco:
Chiwetel Ejiofor
Renate Reinsve
Mark Duplass
Finn Bennett
Lukita Maxwell

Direção:
Kane Parsons

História e Roteiro:
Will Soodik
Kane Parsons

Produção:
Kori Adelson
Michael Clear
Dan Cohen
Chris Ferguson
Dan Levine
Shawn Levy
Kane Parsons
Roberto Patino
Osgood Perkins
Jenno Topping
James Wan

Fotografia:
Jeremy Cox

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