Falar de Kenneth Branagh é, inevitavelmente, falar de William Shakespeare — como se um fosse a extensão contemporânea do outro no cinema. Desde o início de sua carreira, Branagh construiu uma trajetória que busca a grandiosidade do teatro shakespeariano para a linguagem audiovisual sem diluir sua potência.
Não é por acaso que sua estreia na direção, “Henry V” de 1989, já demonstrava um profundo entendimento da obra do Bardo, equilibrando fidelidade textual com uma encenação visceral e cinematográfica. Ao longo dos anos, ele voltaria a Shakespeare diversas vezes, como em “Muito Barulho por Nada” de 1993, onde opta por um tom mais leve e ensolarado, e na ambiciosa adaptação integral de “Hamlet” de 1996, que preserva o texto completo da peça em uma produção de fôlego raro no cinema contemporâneo.
Entre releituras de obras e da vida de Shakespeare, Branagh então dirige esta produção de 2018 que se debruça sobre os últimos anos de vida do autor, já afastado dos grandes palcos, quando sua maior batalha passa a ser enfrentar as turbulências familiares e a melancolia deixada pela morte precoce de seu filho Hamnet.
Não deixa de ser curioso que o filme pode ser muito bem entendido como uma continuação cronologicamente invertida da recente obra premiada “Hamnet” que fala justamente sobre a morte do filho de Shakespeare do ponto de vista de uma perda familiar focada na mãe, então “A Pura Verdade” chega depois, provando que esse conflito esteve longe de se resolver tão cedo.
Só que quando fazemos uma análise fria, o que o roteiro traz é nada mais do que duas linhas de desenvolvimento em paralelo: uma sobre as diversas querelas familiares que muitas das vezes tem pouca ou nenhuma conexão entre si, funcionando apenas como mini histórias que se abrem e se resolvem apenas para o filme não ser um curta metragem, agregando pouquíssimo à trama;
Enquanto a outra é basicamente Shakespeare chorando pelo filho e sendo confrontado pela esposa e filhas, o que vai levar a um interessante, porém esquisito plot twist sobre a autoria de determinados poemas que são caros ao protagonista.
Dessa forma, há mais uma profundidade emocional vinda dos personagens, sendo que a decana Judi Dench – de “Belfast” também dirigido por Branagh – está maravilhosa como Anne, que em “Hamnet” teve sua intérprete Jessie Buckley levando o Oscar de melhor atriz.
O mais irônico de um filme que se chama “A Pura Verdade” é que sabe-se pouquíssimo da vida de Shakespeare na sua “aposentadoria”, isto é, muito do que aparece no filme, incluindo a própria causa da morte do filho, é fruto muito mais de ficção do que de alguma evidência. Mas não tema que este nome tem uma razão de ser que é explicada no decorrer da história.
Ver “A Pura Verdade” é como ver uma temporada inteiro de um “A Grande Família” em tom dramático comprimido em 100 minutos com vários mini episódios e apenas os personagens como ligação. Ainda assim, tem seu valor.
Curiosidades:
- O diretor Kenneth Branagh disse que a cinematografia das cenas internas foi feita usando apenas luz de velas.
- Anne Hathaway era apenas 8 anos mais velha que William Shakespeare. Judi Dench é 26 anos mais velha que Kenneth Branagh.
- O filme acontece em agosto de 1596 e de 29 de junho de 1613 a 25 de abril de 1616.
- Enquanto no filme, o aniversário de Shakespeare é o dia em que ele morre, isso é incerto. Na realidade, ninguém sabe exatamente quando ele nasceu. A primeira referência a Shakespeare é a inscrição de seu batismo no registro da igreja em 26 de abril de 1564 em Stratford-upon-Avon. Devido à peste, tornou-se comum na época batizar bebês logo após o nascimento. Como Shakespeare morreu em 23 de abril, presumiu-se, e o que é possível, que ele nasceu em 23 de abril. No entanto, ninguém sabe.
Ficha Técnica:
Elenco:
Kenneth Branagh
Judi Dench
Ian McKellen
Lolita Chakrabarti
Darryl Clark
Jack Colgrave Hirst
John Dagleish
Eleanor de Rohan
Michael Rouse
Penny Ryder
Kate Tydman
Kathryn Wilder
Lydia Wilson
Jimmy Yuill
Direção:
Kenneth Branagh
História e Roteiro:
Ben Elton
Produção:
Kenneth Branagh
Ted Gagliano
Tamar Thomas
Fotografia:
Zac Nicholson
Trilha Sonora:
Patrick Doyle





