A Odisséia (“The Odissey”)

A Odisséia” foi primorosamente desenhado e construído, deve ganhar uma tonelada de Oscars, é um filmaço, sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Mas não o melhor.

Chris Nolan já premiadíssimo após “Openheimer” conseguiu de realizar seu sonho de filmar em locação e com câmeras IMAX a obra de Homero sobre as tribulações na volta de Odisseu (Matt Damon de “Dinheiro Suspeito”) e sua tropa para ilha de Ítaca – que demorou 20 anos – enquanto sua esposa Penélope (Anne Hathaway de “O Diabo Veste Prada”) é assediada por dezenas de pretendentes que querem ser rei e, inclusive, eliminar o filho dela, Telêmacus (o cabeça de teia Tom Holland), que ainda busca seu pai através dos mares.

Com um elenco que é a fina nata do time A de Hollywood – e muitos se inscrevendo só para piscar um olho num décimo de minuto de cena – Nolan faz com que as quase 3 horas de filme passem voando, mesmo que não haja grandes cenas de ação eletrizante, mas sim com uma intensidade em cada cena, mesmo naquelas contendo apenas diálogos, além de um realismo em cada enfoque que só filmagens em locação, uma fotografia mesmerizante e muita competência sem praticamente nenhum efeito em CGI seriam capazes de fazer.

Como em todos os seus filmes – em maior ou menor escala – o diretor reserva um plot twist para o último ato que fecha o arco de herói de Odisseu e daí entende-se o motivo de seus desvios antes de voltar para sua ilha.

Aliás, essa reviravolta é o que chega mais perto de emocionar o espectador, visto que em quase parte alguma ele experimenta esse sentimento.

É aí que está o motivo de não ser o melhor filme do ano e vamos destrinchá-lo. O problema está mais na obra original do que no filme: para tentar criar uma conexão maior com o público, o diretor “ocidentalizou” os personagens e seu arco de história para que eles refletissem valores mais contemporâneos para que se aproximassem do espectador.

Naquela época, o senso ético e a dinâmica entre pessoas e civilizações eram completamente diferentes de agora. Odisseu, por exemplo, era muito mais cruel na obra de Homero do que no filme, e estava tudo bem. Só que essa mudança proposta no roteiro não é aderente a muitos dos eventos, situações e às próprias decisões dos personagens, o que causa certo distanciamento e, por consequência, a falta de emoção ou pelo menos seu amortecimento durante boa parte do filme. Então há grandes chance de o espectador sair do cinema extasiado pela experiência, mas sem necessariamente se emocionar ou se identificar com ela.

Mas isso não tira nenhum dos méritos de, provavelmente, a maior produção do ano ou dos últimos anos, onde um filme – aí sim – vira um evento cinematográfico que é imperdível em qualquer esfera do que se possa chamar de cinema. Imperdível.

Obs: Toda aquela discussão sobre a escalação de artistas “diversos” para a história não faz sentido nenhum. Lupita Nyong’o dá um show e até a escalação de Elliot Page é plenamente justificável. Interessante que ninguém fala do ótimo John Leguizano, ator, por sinal, latino. Entre outros do elenco.

Curiosidades:

  • As sequências do submundo foram filmadas na Islândia em junho, durante a misteriosa luz do sol da meia-noite, durante todo o dia, em terreno desolado sob condições ventosas e chuvosas.
  • Para o navio principal, a produção localizou o Draken, um navio em grande escala construído com especificações antigas e com materiais apropriados para a época, em Stavanger, Noruega. O navio já havia cruzado o Oceano Atlântico duas vezes e veio com uma tripulação completa que se tornou parte do filme.
  • O Ciclope Polifemo foi retratado por meio de um boneco animatrônico antropomórfico de seis por seis metros de altura.
  • Christopher Nolan queria uma trilha sonora distinta para o filme que não tivesse orquestra, então compositor Ludwig Göransson desenvolveu a trilha sonora em torno de instrumentos gregos (gongos de bronze, lira e flauta aulos).
  • O cachorro que interpreta Argus no filme é um podengo português, uma raça antiga da qual John Leguizamo observou que existem apenas aproximadamente 75 no mundo.
  • Como as câmeras IMAX Film podem armazenar apenas alguns minutos de filme antes de precisarem ser recarregadas, o focalizador Keith Davis se treinou para recarregar a câmera tão rapidamente que todo o elenco e a equipe simplesmente parariam, manteriam a calma e voltariam a funcionar quase imediatamente.
  • No primeiro dia de filmagem Anne Hathaway esqueceu todas as suas falas, porque teve uma péssima noite de sono devido ao jetlag da viagem.
  • No filme Helena de Tróia e Clytemnestra são irmãs gêmeas, mas isso não ocorre na obra original. A decisão foi para que Lupita Nyong’o tivesse mais tempo de tela.
  • A ilha de Favignana, perto da Sicília, foi escolhida para retratar Ítaca depois que a designer de produção Ruth De Jong se lembrou de visitá-la uma década antes, durante a busca de locações.
  • Para resolver o problema da linha de visão criado pelas grandes câmeras IMAX quadradas, a equipe de filmagem projetou um sistema de espelhos que permitia que os atores se vissem enquanto realizavam cenas juntos.
  • Ao contrário da obra, os deuses antigos nunca aparecem, mas são retratados através de fenômenos naturais.
  • Com as filmagens de “A Odisséia”, Zendaya estava fazendo ao todo 3 filmes ao mesmo tempo: esse, a terceira temporada de Euphoria e Duna: Parte 3.

Ficha Técnica:

Elenco:
Matt Damon
Robert Pattinson
Tom Holland
Elliot Page
Travis Scott
Shiloh Fernandez
Anne Hathaway
Jamie Harris
John Leguizamo
Mia Goth
Benny Safdie
Himesh Patel
Andrew Howard
Josh Stewart
Logan Marshall-Green
Charlize Theron
Zendaya
Jon Bernthal
Sean Avery
Bill Irwin
Lupita Nyong’o
Samantha Morton
James Remar

Direção:
Christopher Nolan

História e Roteiro:
Christopher Nolan

Produção:
Christopher Nolan
Emma Thomas

Fotografia:
Hoyte van Hoytema

Trilha Sonora:
Ludwig Göransson

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