O cineasta italiano Paolo Sorrentino é um exímio explorador da finitude humana, como já visto nos ótimos “A Juventude” e “Aqui é o Meu Lugar”.
O protagonista e amigo de longa data do diretor, Toni Servillo de “Gomorra”, é ninguém menos que o Presidente da Itália, que atende pela alcunha ficcional de Mariano de Santis.
Ele é retratado no fim de seu mandato, o que já faz um paralelo direto com a velhice: em ambos os casos, o ser humano deixa de ser um protagonista da vida para ser coadjuvante e, no caso do cargo público, sair da presidência diminui consideravelmente sua importância na sociedade.
Enquanto pondera sobre essa finitude – sua e de seu cargo – ele lamenta a perda do amor de sua vida, corroendo-se por causa de uma suposta traição, mas ainda precisa lidar com dois pontos importantes: aprovar ou não uma lei sobre eutanásia que foi escrita pela própria filha, e conceder um indulto (perdão ou graça) para duas pessoas condenadas por homicídio.
O diálogo que o roteiro propõe é sobre a postura diante da vida nessa fase onde se tem mais passado do que futuro e de como processar a morte e aquilo que você pode perdoar e se perdoar, não sendo a toa esse paralelo com a lei da eutanásia junto com sua paternidade distante ou os indultos para perdoarem terceiros antes de se perdoar a si próprio.
Sorrentino usa uma trilha sonora bem diversa que vai do clássico, passando pela música eletrônica, até o rap italiano, inclusive com a participação do rapper famoso por lá, Guè Pequeno.
A atuação de Toni Servillo é de uma sutileza que surpreende, pois com pouquíssimos gestos fazendo uso de microexpressões, ele consegue se multifacetar, podendo ir de um extremo a outro da emoção. A entrevista que seu personagem dá no fim do filme é algo de arrancar lágrimas, enquanto a cena no espaço representa um discurso perfeito de redenção e libertação.
Ainda há uma cena nos créditos que além de quebrar o tom com muito bom humor, flui de forma natural na narrativa.
“A Graça” é um belíssimo retrato humano sobre a vida ao fim dela, o perdão que fazemos e deixamos de fazer, embalada por uma atuação primorosa e narrativa cativante. Recomendadíssimo.
Curiosidades:
- Durante a entrevista com o diretor da Vogue, o presidente diz que, quando era jovem, gostaria de ser como aqueles que usam jaquetas vermelhas sobre calças brancas. Esta é uma referência a Jep Gambardella, personagem interpretado pelo próprio Servillo no filme A Grande Beleza (2013) do mesmo diretor deste filme, Paolo Sorrentino.
- O personagem do presidente da República Italiana Mariano De Santis é baseado em vários presidentes anteriores: o mais óbvio é Sergio Mattarella, que, em 2026, é presidente; viúvo, ele tem uma filha que o acompanha em situações oficiais; ele uma vez perdoou um assassino que matou sua esposa, afetada pela doença de Alzheimer. Ele também é muito apreciado pelos italianos, como De Santis está no filme. De Santis também lembra Sandro Pertini (o presidente mais querido), Oscar Luigi Scalfaro (de ascendência demo-cristã) e Francesco Cossiga, que, como o protagonista, costumava ter um apelido relacionado à construção: enquanto no filme De Santis se chama “Cemento Armato” (“Concreto Duro”), na história real Cossiga foi chamado de “il Picconatore” (“o Trabalhador de picareta”).
- O astronauta Umberto Giordani é uma homenagem óbvia a Umberto Guidoni, que era astronauta e político.
- Sétima colaboração entre o diretor Paolo Sorrentino e ator Toni Servillo. Ele é tipo o Michael Caine para o Chris Nolan.
Ficha Técnica:
Elenco:
Toni Servillo
Anna Ferzetti
Orlando Cinque
Massimo Venturiello
Milvia Marigliano
Giuseppe Gaiani
Giovanna Guida
Alessia Giuliani
Roberto Zibetti
Vasco Mirandola
Linda Messerklinger
Direção:
Paolo Sorrentino
História e roteiro:
Paolo Sorrentino
Produção:
Annamaria Morelli
Andrea Scrosati
Paolo Sorrentino
Fotografia:
Daria D’Antonio





