Tinha tudo para dar errado. Praticamente todos os filmes solo de origem de vilões de HQ de super-heróis vão de fracos a ruins. A Sony travestida de Marvel errou todos os filmes sem exceção. Foram tão ruins que na comparação até o primeiro “Venom” se saiu razoável.
O único grande filme de vilão foi o da DC com o espetacular “Coringa”, mas isso se não contabilizarmos a sua pavorosa continuação. “Cara de Barro” tem a abordagem de “Coringa” com um ritmo comercial dos bons filmes do gênero.
O diretor James Watkins da ótima adaptação americana “Não Fale o Mal” apresenta Tom Rhys Harries de “Missão Sobrevivência” como Matt Hagen, um ator famoso que tem seu rosto dilacerado por ter passado a noite com a namorada de um mafioso. Sua única esperança é um soro experimental da Dra. Caitlyn (Naomi Ackie de “As Muambeiras”). Só que a experiência começa a dar errado e Matt vê sua pele se transformar ao mesmo tempo em que busca vingança daqueles que lhe traíram.
Um dos grandes trunfos da história é o autor da história e co-roteirista, ninguém menos que Mike Flanagan de “A Vida de Chuck”, que, junto com o diretor, transformaram a produção numa espécie de terror visceral com efeitos especiais e de maquiagem sensacionais, e uma violência explícita dificilmente vista em adaptações de HQ.
Uma das ótimas sacadas foi o fato da transformação dele numa criatura “de barro” não é instantânea e vai evoluindo juntamente com o arco emocional do personagem.
Tal qual “Coringa”, o filme explora de maneira pesada – mas não tão profunda – a exclusão, ou melhor, a perda de status social e o amor não correspondido. O papel do protagonista foi muito bem escrito para que, mesmo que o espectador tenha empatia por ele, não esqueça que ele cometeu ações reprováveis no início e, seu modelo mental é que o leva a um caminho sem volta.
Se sobram qualidades, faltam referências: o único ponto em que que se entende que este é um filme da DC – fora o fato de que o Cara de Barro é um vilão da DC (desconhecido do grande público, mas enfim…) – é porque ele se passa em Gotham City na sua maior parte e isso se reflete em pontos muito explorados no quadrinho como o parque de diversões ou a boite Vesuvius.
Fora isso, nenhum personagem ou contexto remete ao universo DC. Talvez porque se passe antes dos acontecimentos de Batman e agregados.
Só que dá pra ir mais longe: o filme teria o exato mesmo efeito se não fosse da DC, ou seja, se não se passa em Gotham. Assim, supõe-se que adicionaram Gotham ao ao roteiro apenas para sinalizar pertencimento ao DCU.
“Cara de Barro” é o melhor filme de vilão comercial das últimas décadas – depois de “Coringa” – com todos os elementos que um público adulto gostaria de ver numa adaptação de HQ.
Ficha Técnica:
Elenco:
Tom Rhys Harries
Naomi Ackie
Eddie Marsan
Max Minghella
Daniel Betts
Nancy Carroll
Sam Hazeldine
Sonita Henry
David Dencik
Wil Coban
Francesca Corney
Tanya Moodie
Joana Ribeiro
Adam Silver
Joshua James
Direção:
James Watkins
História e Roteiro:
Mike Flanagan
Hossein Amini
Produção:
Lynn Harris
Matt Reeves
James Gunn
Peter Safran
Fotografia:
Rob Hardy
Trilha Sonora:
Volker Bertelmann





