Mesmo que o espectador entenda todos os simbolismos artísticos e abordagens abstratas deste novo drama – querendo ser cult – de Lynne Ramsay do ótimo “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” e baseado no livro homônimo de Ariana Harwicz, ele provavelmente nunca vai deixar de sentir que a maior parte foi em vão, resultado num filme apenas quase bom.
O filme é sobre um tema sério e necessário que é a depressão pós parto e como a falta de uma rede de apoio pode agravar a situação até um caminho sem volta.
Um casal em questão é da fina nata de Hollywood, Jennifer Lawrence de “Que Horas Eu Te Pego” e Robert Pattinson de “O Drama”, como Grace e Jackson respectivamente. Eles se mudam para uma chácara um tanto isolada numa cidadezinha rural. Após ter o filho, Jackson passa a trabalhar viajando, deixando Grace sozinha tendo pouco contato com outras pessoas e inicia-se um processo de depressão com sensação de isolamento, rejeição e descaso.
Só que ao invés de uma construção onde o problema vai escalando, a diretora tomou a decisão de fragmentar a narrativa, sempre mudando a linha do tempo de lugar. Não só isso: mistura realidade com sonho ou até mesmo ficção, coloca personagens que podem existir ou não, e até mesmo na abordagem visual tenta um enfoque mais etéreo, como por exemplo, ao filmar cenas noturnas de dia, mas com lentes escuras, para dar um teor mais artístico, mas esquece de combinar com o espectador.
Muitas vezes a história está no meio de um certo momento de tensão e então corta para uma cena de imaginário ou então volta ou avança no tempo. Não que o artifício faça um filme pior. Por exemplo, “O Drama”, usa e abusa do recurso, mas lá tudo se conecta e os cortes ajudam a construir a narrativa e não a diluí-la.
O assunto está lá e a seriedade também, até porque Lawrence tem uma performance arrasadora, colocando toda a dor de uma mãe com a complexidade de uma mulher em prol de sua condição. Entretanto, as decisões de como isso é colocado não agregam para que a mensagem seja entregue com a força que deveria.
Inclusive o final subjetivo entrega o que houve, mas de uma maneira simbólica que perde força no significado real para se manter no imaginário.
“Morra Amor” é “o entendi, mas não gostei” dos filmes cult (ou pretensos), travestido de experiência cinematográfica. E não foi por falta de conteúdo.
Curiosidades:
- A idéia do filme começou com Martin Scorcese (também produtor do filme), que dirige um club particular do livro, mostrando exatamente esse livro para Jennifer Lawrence que por sua vez encontrou a diretora Lynne Ramsay para fazer parte do projeto.
- Jennifer Lawrence estava grávida de 4 meses nas filmagens e inclusive filmou grávida suas cenas de nudez.
- A música que toca duas vezes durante o filme, “In Spite of Ourself” de John Prine e Iris DeMent, foi originalmente escrito por Prine para o Billy Bob Thornton filme “Tudo em Família” (2001).
- O primeiro dia de filmagem no set foi a cena de sexo nu no início do filme. A diretora queria começar com isso para quebrar quaisquer inibições entre os dois.
- O bebê de Grace no filme é na verdade filho da produtora Andrea Calderwood.
Ficha Técnica:
Elenco:
Jennifer Lawrence
Robert Pattinson
Sissy Spacek
Nick Nolte
LaKeith Stanfield
Gabrielle Rose
Clare Coulter
Zoe Cross
Sarah Lind
Luke Camilleri
Direção:
Lynne Ramsay
História e Roteiro:
Enda Walsh
Lynne Ramsay
Alice Birch
Produção:
Andrea Calderwood
Justine Ciarrocchi
Jennifer Lawrence
Thad Luckinbill
Trent Luckinbill
Martin Scorsese
Molly Smith
Fotografia:
Seamus McGarvey
Trilha Sonora:
Raife Burchell
Lynne Ramsay
George Vjestica





