O indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro vindo da Espanha começa com uma rave no deserto do Marrocos onde imagem e som formam um espetáculo junto aos créditos iniciais num dos grandes momentos da produção.
Lá pai e filho procuram a filha que há temos desapareceu. Quando o exército marroquino anuncia uma guerra de grandes proporções, a dupla segue um grupo de ciganos da rave para uma outra festa onde a filha pode estar, só que nesse caminho vão enfrentar a aleatoriedade do destino.
O diretor Oliver Laxe fez uma divisória clara da história em duas partes: na primeira, há a predominância da forma sobre o conteúdo, onde o som aliado à belíssima fotografia árida de Mauro Herce serve de catalisador para que pólos diferentes se conheçam e se unam, como é o caso do pai conservador interpretado com maestria por Sergi López de “O Festival do Amor” e pela tribo de ravers, cujos membros foram selecionados entre artistas de rua da frança, e que representa um outro lado como excluídos da sociedade.
Já a segunda parte começa com um plot twist quase que aterrador que vai por um caminho narrativo diametralmente oposto, num redemoinho dramático que beira o suspense e terror, mas que também se apóia numa abordagem audiovisual que, se agora não dita a narrativa, encaixa-se nela com facilidade.
Um dos grande heróis do filme é Kangding Ray, nome artístico de David Letellier, é um renomado músico, produtor e DJ francês radicado em Berlim, conhecido por fundir techno, música experimental e ambient. Com um estilo futurista e texturas complexas, ele evoluiu de um minimalismo inicial para paisagens sonoras viscerais, aplicando todo o seu conhecimento na trilha sonora do filme.
Enquanto isso, o diretor capricha em grandes contemplativos visuais – alguns até meio cansativos – e deixa espaço livre para Sergi López brilhar principalmente na segunda metade da projeção.
O desfecho é uma analogia à ponte Sirât, que dá nome ao filme, na tradição islâmica, uma ponte mítica que atravessa o Inferno e liga o local de julgamento ao Paraíso, que toda alma deve cruzar após a morte. Descrita como mais fina que um fio de cabelo e mais afiada que uma espada, ela representa o teste final de fé, onde os crentes passam rapidamente, enquanto os descrentes caem no abismo.
Com todo o simbolismo nem todo mundo vai absorver o final do mesmo jeito, já que pelo lado mais técnico, há um certo corte nos propósitos dos personagens e nas expectativas do público.
Produzido por ninguém menos que os rimãos Almodóvar, “Sirât” é uma experiência diferenciada que traz um universo de sons e imagens que se conectam para contar uma história com seus altos e baixos, mas que tentam trazer um contexto de acaso do destino nas melhores e piores formas.
Curiosidades:
- Durante as filmagens em Marrocos, a equipe teve que lidar com o calor intenso e as tempestades de areia, tanto que um dia, uma tempestade de areia quebrou algumas lentes e outros equipamentos, o que obrigou a equipe a fazer refilmagens.
- O título não aparece na tela até aproximadamente 30 minutos após o início do filme.
- Um dos personagens, Bugui, veste uma camiseta com Freaks (“Monstros” – 1932), filme sobre um grupo de circo. A maioria dos personagens viajantes, exceto Louis, podem ser vistos como “freaks” (Monstros).
Ficha Técnica:
Elenco:
Sergi López
Bruno Núñez Arjona
Stefania Gadda
Joshua Liam Herderson
Richard ‘Bigui’ Bellamy
Tonin Janvier
Jade Oukid
Direção:
Oliver Laxe
História e Roteiro:
Santiago Fillol
Oliver Laxe
Produção:
Agustín Almodóvar
Pedro Almodóvar
Domingo Corral
Xavi Font
Esther García
Oliver Laxe
Oriol Maymó
Mani Mortazavi
César Pardiñas
Andrea Queralt
Fotografia:
Mauro Herce
Trilha Sonora:
Kangding Ray





